A River Through the Chaos

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Um Rio em Meio ao Caos

Salmo 36, amor aos inimigos e aprendendo a beber de outra fonte

Tempo de leitura: 7 minutos

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“…e na torrente das tuas delícias lhes dás de beber.”

— Salmo 36:8

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Um Rio em Meio ao Caos

John Paton sabia o que era ter o cano de um mosquete apontado para a cabeça.

Muitas vezes.

No século XIX, John Paton atravessou o mundo para viver entre os povos das ilhas do Pacífico Sul que hoje chamamos de Vanuatu e falar com eles sobre Jesus.

A violência podia explodir quase sem aviso. E o que torna suas histórias ainda mais perturbadoras é que alguns dos mesmos homens que ameaçavam matá-lo, em outros momentos, eram seus vizinhos, seus amigos e até participavam das reuniões da igreja.

Às vezes, Paton corria na direção do homem que o ameaçava, abraçava-o e ficava agarrado a ele até sua raiva esfriar.

Muitas vezes, segurava o cano de um mosquete e o empurrava para o céu, enquanto implorava ao homem e lutava para impedir que a arma disparasse.

E às vezes não havia absolutamente nada que pudesse fazer.
Nenhum movimento de defesa.
Ele simplesmente ficava parado e orava.

Paton era corajoso. Também sentia medo.

Ele escreveu:

“Às vezes, nosso coração tremia diante da morte iminente e desfalecia dentro de nós; [mesmo assim], permanecíamos destemidos diante deles e deixávamos todos os resultados nas mãos de Jesus.”

Paton fazia o que podia.

Depois, deixava os resultados com Jesus.

Tenho pensado nisso enquanto memorizo o Salmo 36.

Porque o Salmo 36 não começa ao lado de águas tranquilas.
Começa no escuro.

John G. Paton enfrentou repetidamente situações de violência durante seus anos como missionário nas Novas Hébridas, hoje chamadas Vanuatu. Sua autobiografia tem acompanhado minha leitura do Salmo 36 esta semana.

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Quando Nosso Mundo Fica Pequeno

O Salmo 36 começa com um retrato inquietante de alguém que está sendo moldado pelo mal.

Não há temor de Deus diante dos seus olhos.
Em vez disso,

“…a transgressão o lisonjeia a seus olhos…”

Ele se tornou muito bom em explicar a si mesmo por que está certo.

A descrição de Davi me incomoda mais do que simplesmente ler sobre uma pessoa má.

Porque eu sei como o meu mundo também pode encolher facilmente.
Alguém na igreja toma uma decisão que considero errada.
Um membro da equipe em quem confio me decepciona.
Um líder age mal.

No início, talvez eu esteja reagindo a algo realmente errado.
Mas, quando tudo fica quieto, percebo como é fácil ficar repassando a discussão na minha cabeça.
Aos poucos, essa pessoa pode começar a ocupar mais espaço na minha imaginação do que Deus.

O problema pode ser real.
Eu posso até estar certo.
Mas alguma coisa está acontecendo comigo.

É possível estar certo sobre o que está errado — e, mesmo assim, deixar que aquilo nos molde na direção errada.
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Então Davi Levanta os Olhos

Depois de quatro versículos desse mundo humano apertado, o Salmo de repente se abre por inteiro.

“A tua misericórdia, SENHOR, chega até os céus,
a tua fidelidade vai até as nuvens.
A tua justiça é como as grandes montanhas;
os teus juízos são como um abismo profundo.”

A pessoa que está agindo mal não desapareceu.

A situação não se resolveu magicamente.

Mas, de repente, algo muito maior começa a preencher o horizonte de Davi.
E Davi descobre:

“Na tua luz, vemos a luz.”

Antes, o Salmo 36 descrevia uma pessoa presa dentro da própria maneira de enxergar.

Agora Davi está na luz de Deus.

Sinto esse contraste percorrendo o Salmo inteiro.

Um mundo vai se fechando sobre si mesmo.
O outro não para de se abrir.

Quem está agindo mal não é grande o bastante para ocupar todo o meu horizonte.

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Não Precisamos nos Tornar Aquilo que Combatemos

Davi conhecia gente perigosa.

Saul tentou matá-lo repetidas vezes.
Às vezes, Davi corria.
Ou se escondia.
Ou confrontava.
Ou mantinha distância por um tempo.

Mas Davi se recusou a deixar Saul decidir que tipo de homem Davi se tornaria.

E quando Saul finalmente morreu, Davi lamentou sua morte.

Jesus leva isso ainda mais longe.

Mateus nos conta sobre um governante que deu um banquete.
Era uma festa marcada por orgulho, preocupação com a própria imagem, pressão política e uma promessa precipitada.
No fim do banquete, a cabeça de João Batista foi trazida para dentro da sala numa bandeja.
Quando Jesus soube do que havia acontecido, retirou-se de barco para um lugar deserto, à parte.
Mas as multidões foram atrás dele.

“Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.”

E então, naquele lugar deserto, Jesus ofereceu uma refeição completamente diferente.
Ele alimentou a multidão.

Mateus acabou de nos levar de uma mesa a outra.

No banquete de Herodes, o poder tenta proteger a si mesmo — e alguém morre.
Na refeição de Jesus, a compaixão se derrama — e milhares comem.

Herodes produz mais mortes.
Jesus continua gerando vida.

Jesus não respondeu a Herodes, tornando-se mais parecido com Herodes.
Ele respondeu a um reino de morte fazendo avançar o Reino de Deus.

Curando.
Alimentando.
Restaurando.
Dando vida.

Quem tem a imaginação mergulhada nas Escrituras de Israel reconhece outra história da abundância de Deus.

Vida na presença de Deus.
Provisão para gente e animais.
Um rio saindo do Éden, regando o jardim e depois seguindo para fora.

Mais tarde, Ezequiel vê água saindo da morada de Deus e correndo para terras áridas.
Por onde o rio passa, as coisas ganham vida.

E, lá no outro extremo da história bíblica, João vê o rio da água da vida saindo do trono de Deus, com a árvore da vida ao lado e suas folhas trazendo cura para as nações.

Há um rio correndo por toda a história bíblica.

E o Salmo 36 sugere uma pergunta que não sai da minha cabeça:

De que fonte estou bebendo enquanto luto contra o que está errado?

Porque ao nosso redor corre uma corrente de vozes nos dizendo o que está errado.

Controvérsias na igreja.
Mágoas na família.
Indignação política.
Desconfiança.
Medo.

Algumas dessas correntes podem trazer informações de que eu realmente preciso.

Mas, se eu beber delas o dia inteiro, não deveria me surpreender quando aquilo começar a transbordar de mim.
Aquilo que absorvemos repetidamente acaba fazendo parte do que carregamos.

No começo, talvez apenas as pessoas mais próximas percebam.

Mas, com o tempo, ressentimento, desconfiança e medo podem entrar numa sala conosco e preenchê-la antes mesmo de termos dito quase nada.

Paulo diz que nossa vida exala um aroma.

Jesus diz que a boca fala do que está cheio o coração.

Podemos sorrir, dizer todas as palavras certas e, ainda assim, levar ressentimento conosco para dentro da sala.
Ou podemos matar a sede em outra fonte.

Refúgio.
Abundância.
Deleite.
Vida.
Luz.

Quem está agindo mal não é grande o bastante para ocupar todo o meu horizonte.

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O Amor Continua Gerando Vida

Amar as pessoas não significa fingir que o mal não existe.

Paton agarrava canos de mosquetes.
Davi fugiu de Saul.
Jesus curou gente e ficou ao lado dos mais vulneráveis.

O amor pode dizer a verdade, estabelecer limites, proteger os vulneráveis, questionar decisões ou se recusar a colaborar com certas práticas.

Mas nada disso exige desprezo.

Existe uma diferença importante entre dizer:

“O que você está fazendo está errado.”

e dizer:

“Você é um idiota.”

Porque a pessoa diante de mim carrega a imagem de Deus.

Podemos lutar contra o que destrói a vida e, ao mesmo tempo, continuar nos tornando pessoas que geram vida.
Isso talvez exija mais coragem do que a própria raiva.

É por isso que o dom do Espírito Santo importa tanto.

Precisamos de muito mais do que boas intenções para viver assim.
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Mais Uma Integrante de Verdade da Família

Ontem, nossa família recebeu um presente especialmente bonito — uma pequena amostra das delícias de Deus.

Nasceu nosso quarto neto.

Por enquanto, ela não faz a menor ideia em que família foi parar.

Espero que cresça achando perfeitamente normal estar cercada por uma família grande e amorosa.

Creio que vai…

Margaret Hazel Whitton não faz a menor ideia em que família foi parar, mas já é membro de verdade — tanto quanto qualquer outra pessoa na sala.

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E ela também vai aprender outras coisas conosco.

Vai observar como os adultos ao redor dela reagem quando sentirem medo.
Vai ouvir como falamos das pessoas que nos decepcionam.
Vai perceber o que acontece quando cristãos discordam.
Vai aprender se precisamos de inimigos para saber quem somos.

O mundo em que ela está entrando vai lhe dar motivos de sobra para sentir raiva.

Vozes de sobra vão lhe dizer de quem ter medo.
Quem culpar.
Quem desprezar.

Esperamos ajudá-la a reconhecer o mal sem fazer dele a água que bebe.
Mostrar a ela coragem sem desprezo.
Verdade sem ódio.
Limites sem desumanizar ninguém.

E quando o mundo ficar assustadoramente pequeno, esperamos ensiná-la para onde olhar:

As asas de Deus.
A abundância da Sua casa.
A fonte da vida.
O rio das delícias de Deus.

Faremos tudo o que pudermos para mostrar a estas próximas gerações de que fonte beber.


Três Perguntas do Salmo 36 que Estou Levando Comigo

1. O que está acontecendo dentro de mim?

Enquanto observo as escolhas de outra pessoa, estou prestando atenção no que a minha reação está fazendo comigo?

2. De que fonte estou bebendo?

O que está moldando minha imaginação, minhas emoções, minhas conversas e a maneira como vejo os outros?

3. Posso resistir ao que está errado sem me tornar aquilo que combato?

Posso dizer a verdade, estabelecer limites, proteger o que é bom — e ainda me lembrar de que a pessoa diante de mim também carrega a imagem de Deus?

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Uma Oração

Senhor Jesus,

Quando algo estiver errado,
Dê-nos coragem para chamar as coisas pelo nome.

Quando alguém estiver sendo ferido,
Dê-nos coragem para agir.

Mas guarde nosso coração.
Guarde nossos olhos.

Quando estivermos certos,
Não nos deixe cair na arrogância.

Quando estivermos errados,
Dê-nos humildade para aprender.

Ensine-nos a lutar contra o que destrói a vida
Sem desprezar as pessoas que o Senhor criou.

Quando outros tentarem espalhar medo,
Faça de nós pessoas que espalham paz.

Onde houver feridas,
Ensine-nos a cuidar.

Onde houver fome,
ensine-nos a dar de comer.

Onde houver morte,
Ensine-nos a continuar escolhendo a vida.

Ensine-nos a fazer o que nos cabe
E deixar os resultados
Em Suas mãos.

Enquanto o caos ainda estiver acontecendo,
Leve-nos para debaixo das Suas asas.

Alimente-nos com a abundância da Sua casa.

Ensine-nos a beber profundamente
Da torrente das Suas delícias.

E ajude as próximas gerações
A encontrar esse rio também.

Estenda Sua misericórdia
Àqueles que amam o Senhor.

Amém.

Com gratidão,
Ricardo e Deanna

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Referências

Citação de John G. Paton extraída de John G. Paton, Porirua Publishing, edição Kindle, Segunda Parte, cap. 6, par. 10. Tradução nossa.

As citações bíblicas são da NAA (Nova Almeida Atualizada), salvo indicação em contrário.

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